Como calcular a carga elétrica de um imóvel residencial

O cálculo da carga elétrica de uma residência é uma etapa fundamental no planejamento de uma instalação segura, eficiente e compatível com as necessidades dos moradores. Saber dimensionar corretamente a carga permite escolher os componentes adequados, evitar sobrecargas, economizar energia e garantir o bom funcionamento dos equipamentos.

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Neste artigo, você vai aprender como fazer esse cálculo de forma prática, com base nas normas brasileiras e utilizando exemplos simples.

O que é carga elétrica?

A carga elétrica de um imóvel é a soma da potência (em watts) de todos os aparelhos e equipamentos que serão utilizados, levando em conta o tempo de uso e a simultaneidade (quantos estarão ligados ao mesmo tempo). A partir desse valor, é possível:

  • Dimensionar os disjuntores
  • Escolher a bitola dos cabos
  • Definir o tipo de alimentação (monofásica, bifásica ou trifásica)
  • Planejar os circuitos elétricos

Normas para o cálculo da carga elétrica

A principal norma que rege o dimensionamento da carga elétrica em residências é a NBR 5410, da ABNT. Ela estabelece critérios mínimos para cálculo e distribuição da carga instalada em função da área da residência e dos pontos de utilização.

Etapas para calcular a carga elétrica residencial

Vamos agora ao passo a passo de como realizar esse cálculo:


1. Calcular a carga mínima da iluminação

Segundo a NBR 5410, a carga mínima de iluminação deve ser de:

  • 100 VA para os primeiros 6 m²
  • + 60 VA para cada 4 m² adicionais

Exemplo:

Área do cômodo: 20 m²
Cálculo:
100 VA (primeiros 6 m²) + 60 VA × (14 ÷ 4) = 100 + 210 = 310 VA

Você deve repetir esse cálculo para cada cômodo da casa.


2. Calcular a carga das tomadas de uso geral (TUG)

As TUGs são aquelas tomadas distribuídas pelos ambientes para uso comum (ex: carregar celular, ligar abajur, TV, etc.).

A NBR 5410 determina:

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  • 1 tomada a cada 5 m² nos primeiros 10 m² de cada ambiente
  • 1 tomada a cada 10 m² nos demais
  • Cada TUG deve ser considerada com 100 VA

Exemplo:

Sala de 15 m² → 2 tomadas (10 m²) + 1 tomada (5 m²) = 3 tomadas
Carga: 3 × 100 VA = 300 VA


3. Calcular a carga das tomadas de uso específico (TUE)

TUEs são tomadas destinadas a equipamentos com consumo elevado, como:

  • Chuveiro elétrico
  • Ar-condicionado
  • Máquina de lavar
  • Micro-ondas
  • Geladeira
  • Forno elétrico

Essas cargas são consideradas pelo valor real da potência do aparelho, normalmente indicada na etiqueta do fabricante.

Exemplo:

  • Chuveiro elétrico: 5.500 W
  • Forno elétrico: 2.000 W
  • Micro-ondas: 1.500 W
    Carga total: 9.000 VA

4. Calcular a carga mínima por área construída

A norma exige uma carga mínima total em função da área do imóvel:

  • Até 50 m²: 3.000 VA
  • Acima de 50 m²: 100 VA por m²

Exemplo:

Casa com 80 m² → 80 × 100 = 8.000 VA


5. Considerar os fatores de demanda (simultaneidade)

Nem todos os aparelhos funcionam ao mesmo tempo. Por isso, aplica-se um fator de demanda que reduz a carga total e torna o cálculo mais realista.

A NBR 5410 traz uma tabela com valores típicos. Por exemplo:

Faixa de Carga Total (VA)Fator de Demanda
Até 3.000 VA100%
De 3.001 a 6.000 VA75%
De 6.001 a 10.000 VA60%
Acima de 10.000 VA50%

Exemplo:

Carga total bruta estimada: 12.000 VA
Cálculo:

  • 3.000 VA × 100% = 3.000
  • 3.000 VA × 75% = 2.250
  • 4.000 VA × 60% = 2.400
  • 2.000 VA × 50% = 1.000
    Carga final estimada: 8.650 VA

6. Escolher o tipo de alimentação

Com a carga final em mãos, você pode escolher o tipo de alimentação:

Carga estimada (VA)Tipo recomendado
Até 8.000 VAMonofásico (127V ou 220V)
8.000 a 15.000 VABifásico (220V)
Acima de 15.000 VATrifásico (220V ou 380V)

7. Dimensionar o disjuntor geral

O disjuntor geral deve ser escolhido conforme a carga total e a tensão. Para isso, usa-se a fórmula:

Corrente (A) = Potência (VA) ÷ Tensão (V)

Exemplo:

Carga: 8.650 VA
Tensão: 220 V
Corrente: 8.650 ÷ 220 = 39,3 A
Disjuntor recomendado: 40 A


8. Calcular a bitola dos cabos

A bitola dos cabos depende da corrente, do comprimento da fiação e do tipo de circuito (iluminação, tomadas, etc.). Uma tabela simplificada pode ser usada:

Corrente (A)Bitola (mm²) recomendada
Até 15 A1,5 mm²
Até 20 A2,5 mm²
Até 32 A4 mm²
Até 40 A6 mm²
Acima de 50 A10 mm² ou mais

No caso do exemplo anterior (40 A), a bitola recomendada seria 6 mm².


9. Dividir os circuitos

Com a carga total e os equipamentos identificados, você deve criar circuitos independentes, geralmente organizados assim:

  • Circuito 1: Iluminação
  • Circuito 2: Tomadas comuns
  • Circuito 3: Tomadas de cozinha
  • Circuito 4: Chuveiro elétrico
  • Circuito 5: Máquina de lavar
  • Circuito 6: Ar-condicionado

Cada circuito terá seu disjuntor no quadro de distribuição.


Dica: use softwares ou calculadoras online

Hoje existem várias ferramentas que ajudam no dimensionamento elétrico, como:

  • QElétrico
  • Calculadoras de fabricantes (Sil, Pirelli, WEG)
  • Aplicativos de engenharia elétrica

Eles agilizam o processo e reduzem o risco de erros.


Calcular a carga é investir em segurança e economia

Fazer o cálculo correto da carga elétrica de uma residência é essencial para evitar desperdício de energia, garantir o funcionamento dos aparelhos e, principalmente, proteger a instalação contra sobrecargas e curtos-circuitos.

Se você está construindo, reformando ou quer apenas revisar a parte elétrica da sua casa, conte com um profissional qualificado e siga as diretrizes da NBR 5410. Segurança elétrica não é luxo, é necessidade.

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